PORTEIRA
Não comentei antes por falta de computador e expediente, mas fui convidada pela Heloísa Buarque de Hollanda para estrear a seção CURADORIA DE POETA, no Portal Literal, que todo mês vai convidar um poeta para mostrar os seus.
Sejam eles mortos, vivos, novos, velhos. Vale música, banda, artes plásticas, fotos do próprio pé, notícias do cerrado. Vale tudo. É uma espécie de blog por um mês.
Eu optei por mostrar os trabalhos de amigos pouco conhecidos, ou nada conhecidos. Com exceção do Sergio e do Marcelo, todos os outros não têm livros publicados, e a maioria nem se diz poeta, escritor ou bailarino.
Na primeira edição teve Sergio Mello e Marcelo Montenegro, dicas de álbum pra baixar e ilustrações do Rômulo Martinz. Na segunda, textos de Letícia Novaes, Fernanda D’umbra e Joana Coccarelli, e ilustras da Aline Jobim.
A terceira e penúltima parte entrou no ar hoje com poemas de Ana Guadalupe, Keli Freitas, Alice Sant’anna e ilustrações do Herbie. Ah, e uma tradução minha pro poema “Es olvido”, do Nicanor Parra.
Branco
Juro que não me lembro nem do seu nome,
Mas morrerei chamando-a Maria,
Não por simples capricho de poeta:
Por seu aspecto de praça de província.
Tempos aqueles!, eu um espantalho,
Ela uma jovem pálida e sombria.
Uma tarde ao voltar do Liceu
Soube de sua morte imerecida,
Notícia que me causou tanto desengano
Que derramei uma lágrima ao ouvi-la.
Uma lágrima, sim, quem diria!
E isso que sou pessoa de energia.
Se hei de dar crédito ao que foi dito
Pelos que trouxeram a notícia
Devo crer, sem duvidar uma vírgula,
Que morreu com meu nome nas pupilas,
Fato que me surpreende, porque nunca
Foi para mim outra coisa além de amiga.
Nunca tive com ela mais que simples
Relações de estrita cortesia,
Nada mais que palavras e palavras
E um ou outro comentário sobre as andorinhas.
A conheci entre os meus (dos meus
só me sobrou um punhado de cinzas),
Mas jamais vi para ela outro destino
Que o de uma jovem triste e pensativa.
Tanto não minto que até cheguei a chamá-la
Pelo celeste nome de Maria,
Circunstância que prova claramente
A exatidão central de minha doutrina.
Pode ser que uma vez eu a tenha beijado,
Quem é que não beija suas amigas!
Mas é certo que o fiz
Sem me dar conta do que fazia.
Não negarei, isso sim, que me agradava
Sua imaterial e vaga companhia
Que era como o espírito sereno
Que às flores domésticas anima.
E não posso ocultar de forma alguma
A importância que teve seu sorriso
Nem desvirtuar a favorável influência
Que até nas pedras exercia.
Falemos, ainda, que da noite
Seus olhos foram fonte fidedigna.
Mas, apesar de tudo, é necessário
Que compreendam que eu não a queria
Senão com esse vago sentimento
Com que a um parente enfermo se designa
No entanto acontece, sem dúvida,
Que esta data ainda me maravilha,
Esse inaudito e singular exemplo
De morrer com meu nome nas pupilas,
Ela, múltipla rosa imaculada,
Ela que era uma lâmpada legítima.
Têm razão, muita razão, as pessoas
Que se queixam noite e dia
De que o mundo traidor em que vivemos
Vale menos do que uma roda vazia:
Muito mais nobre é uma tumba,
Vale mais uma folha envelhecida,
Nada é verdade, aqui nada perdura,
Nem a cor do cristal que vemos agora.
Hoje é um dia azul de primavera,
Creio que morrerei de poesia,
Da famosa jovem melancólica
Não recordo nem o nome que tinha
Só sei que passou por este mundo
Como uma pomba fugitiva:
A esqueci sem querer, lentamente,
Como todas as coisas da vida.
Filed under: duzoutros, nuevo ovo | 3 Comentários
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Seja bem – vinda novamente!
Conheço seu trabalho à pouco tempo, porém um grande degustador de suas palavras.
Um abraço!
ficou duca, a fernanda eu já conhcia, né, e a letícia bateu forte. abraço.
Muito bom estar ali, Bruna. Estive ontem no Rio, mas só por umas poucas horas. Uma hora dessas baixo mesmo pra uma cerveja. Parei de fumar pra cantar melhor. Veja você, eu tentando fazer as coisas de um jeio melhor. Agora, nêga?